Da coleção de histórias do lado A – a nova nefrologista e o impacto de Sandra Cristina

Entrei na pequena recepção da clínica e perguntei para a recepcionista se o Dr. Rodrigo poderia me atender. Eu estava terminando a residência médica e estrategicamente dava plantões no CTI de um hospital onde funcionava também uma clínica de diálise, que era onde eu gostaria de trabalhar como nefrologista. Por sorte um dos médicos dessa clínica tinha sido meu staff no internato e me convidou para cobrir suas férias de verão. Tinha marcado com ele para que me apresentasse o local, a rotina e os pacientes, antes que eu assumisse seus turnos de trabalho.

O nefrologista é um especialista clínico, que cuida das doenças dos rins, especialmente da falência completa desse órgão. Quando a falência é súbita, normalmente há recuperação dos rins após alguns dias ou semanas e a diálise é eventual. Mas se a falência é crônica, os rins se atrofiam e é preciso estabelecer algum tratamento continuado que substitua a função vital desse órgão. Esses tratamentos podem ser a própria diálise ou um transplante renal. Embora o transplante seja o ideal, muitos pacientes dependem da diálise para sobreviver.  O transplante nem sempre pode ser feito, nem sempre é rápido e, por mais incrível que possa parecer, alguns pacientes não desejam ser transplantados, por motivos diversos.

O trabalho do nefrologista é pouco conhecido. Ele é o clínico dos rins, órgãos usualmente duplos que são bastante complexos e vitais. Quando os rins param de funcionar de forma definitiva, o paciente precisa ser submetido a diálise ou a um transplante renal para manter-se vivo.
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O tratamento de diálise mais frequente se chama hemodiálise e consiste em um tipo de “limpeza” do sangue, com o uso de máquinas e filtros especiais para esse fim. Os pacientes precisam fazer este tratamento várias vezes por semana em clínicas especializadas, como essa que havia nesse hospital. A mágica desse tratamento me encantou desde o primeiro contato que tive, ainda estudante. A complexidade do paciente e do aparato necessário me faziam me sentir digna da profissão, pois sentia que realmente fazia a diferença por ali. Esse era um dos motivos pelo qual havia escolhido a especialidade. O outro motivo foi uma decepção com a anestesia, que era a minha primeira escolha. Desisti quando entendi que o cirurgião sempre seria o protagonista daquele ato médico. Eu era quase uma adolescente, deslumbrada com a medicina, e não me via nesse lugar de engolir sapos e obedecer ordens. A vida ainda ia me ensinar quantas vezes teria que ter juízo e optar por ficar exatamente nesse lugar.

Para os leigos, os centros de diálise são lugares sombrios e de tristeza. Naquele início, para mim era um lugar de tensão, onde reconhecia minha enorme responsabilidade, mas meu ego só pensava na diferença que eu poderia fazer na vida de alguém. Não tinha ideia de quantas histórias de vida iria testemunhar, quantas pessoas iriam me marcar e como esses relacionamentos moldariam minha forma de ver a vida e a morte. Ou seja, a diferença que os pacientes fariam na minha vida.

A aparência de um centro de diálise nos tempos atuais.

Hoje, 30 anos depois, ainda me lembro muito bem da moça, muito jovem, de cara brava, andando de um lado para o outro naquela recepção que eu entrei. Usava, naquele ambiente hospitalar, um “micro” biquíni vermelho sob uma saída de praia de rendas amarelas, de transparência quase total. O look incluía chinelos de borracha e muita areia nos pés. Os cabelos curtos estavam molhados e seus bonitos olhos amendoados, expressivos e atentos, passaram por mim sem parecer notar minha presença. Agitada, ela gesticulava e resmungava alto, para todos e para ninguém, que era um absurdo não a deixarem dialisar assim, que queria falar com a enfermeira chefe, e que não sairia dali sem que antes lhe explicassem quais eram os impedimentos. Me sentei, observando curiosa aquela movimentação.

Após alguns minutos uma porta se abriu e uma enfermeira apareceu, sentenciando em voz alta:

-Sandra, assim você não entra para dialisar. Este é um lugar de higiene e de regras de convivência. Não são trajes para você usar aqui e também pode colocar em risco sua vida e a dos outros. Vá para sua casa, tome um banho e volte de noite. Eu tenho uma vaga mais tarde para você.

A enfermeira também era jovem, mas parecia muito segura e enérgica, o que depois confirmei. A paciente olhou para ela e inacreditavelmente se calou, deu meia volta e saiu pela portaria. Soube depois que mais tarde voltou, cheirosa e perfumada, e realizou o tratamento.

Cuidei dessa paciente por muitos anos. Apesar de todas suas limitações por depender de um tratamento de diálise, tinha uma energia invejável e uma alegria de viver indiscutível. Chamava seu marido de “Chão” e, de fato, ele era a segurança da sua vida. Nunca deixou de se exibir com decotes ousados, maquiagens exageradas e roupas sensuais, assim como proferia muitas cantadas e declarava obscenidades sobre sua própria vida. Mas não foi difícil compreender que essa era somente sua maneira de se sentir viva. Me fazia dar boas gargalhadas e tornava qualquer ambiente mais leve. Uma vez, diante de um procedimento difícil de instalação de um cateter na sua virilha, protestou veementemente:

– Ahhhh não vou fazer isso com você não!

Eu levei um susto, insegura, mas ela completou:

-Vim até de calcinhas novas! Não acredito que Dr. Edmundo não vai me puncionar. Que coisa mais sem graça doutora Bia… Amarelinha, linda… olha isso…Você quem vai fazer!? Ahhhh não…

Rimos muito. Durante o procedimento, ela continuou me falando das pernas espetaculares do tal doutor, que ela tinha tido a oportunidade de ver quando encontrou ele caminhando de bermudas no bairro (depois eu notei que eram lindas mesmo!) e o procedimento foi um sucesso. Tranquila ela e eu. Pronto…humor é tudo.

Outra coisa que me me lembro, e que me chamou muita atenção, foram as fotos da casa da Sandra com o Chão. Ambos eram humildes, casaram e se mantiveram morando na mesma comunidade, mas a casa deles era muito, muito arrumadinha. De cores pastéis, simples, mas tudo de muito bom gosto, toda enfeitadinha. Flor na janela. Abajur na mesinha. Aquelas coisas de capricho de quem gosta do seu lar. Ela fez questão de fotografar todos os cômodos, mesmo naquela época de fotos reveladas em papel. Levou para a clínica e mostrou para todos seu novo ninho, orgulhosa. Hoje já se sabe que o jeito de cuidarmos da nossa casa diz muito sobre nossa organização interna. Pensando isso, vejo que apesar da sua simplicidade (e talvez exatamente por causa dela), e de todo sacrifício e estresse diante de uma doença crônica tão difícil, a Sandra Cristina tinha uma morada interna de paz. Usou as ferramentas emocionais que tinha, achou um “chão” na sua vida e foi muito feliz ao seu modo.

Lidar com uma doença tão transformadora e sacrificante, e ainda se manter feliz, é um desafio gigante, mas eu vi ser superado por muitos. Os que conseguem são aqueles que encontram maneiras de conviver bem com o tratamento, como a Sandra. Acredito que essas pessoas incríveis dão muito valor a oportunidade de vida que o tratamento proporciona, apesar das restrições. Eles pensam menos no motivo deste destino, adaptam o tratamento às suas rotinas e seguem dialisando para viver e não vivendo para dialisar. Sofrem sim, por vezes muito, mas escolhem valorizar as pequenas coisas do dia a dia, a convivência familiar, os pequenos prazeres, tudo que puderem continuar aproveitando desse mundinho aqui.

Embora tenha vivendo muitos anos em tratamento, a Sandra morreu ainda jovem para as expectativas de vida de hoje, com uma infecção generalizada. Muitos anos depois recebemos a sua sobrinha, ainda criança, para tratamento dialítico. Possivelmente tinham a mesma doença genética e a história se repetiu. Foi estranhamente emocionante ver o mesmo sobrenome e identificar traços comuns na fisionomia da menininha. Nos despertou do nosso estado de saudades da Sandra, que não tínhamos consciência. A convivência com essa mocinha foi rápida, pois como criança tem prioridade para o transplante, ela logo mudou de tratamento. Não soube mais do seu futuro mas tinha muita esperança que herdasse também a especial alegria de viver da sua tia, e que curtisse muito, apesar de tudo, sua passagem neste planeta.

Obs: essa é uma história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes verdadeiros e os locais foram modificados ou omitidos para proteger pessoas ou instituições.

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