Uma promoção ótima da AirFrance na BlackFriday e um intervalo sabático foi a combinação que fez nascer essa viagem. Tinha adiado a Borgonha uma vez por conta do alto verão. Preparando um roteiro para agosto, constatei que a região não entrega tudo em nessa época e era meu mês de férias. Desta vez, apesar de não gostar do frio e dos dias curtos no inverno da Europa, acreditei que uma viagem pra “ver vinho” e rever os museus de Paris na época de luzes e vitrines de Natal poderiam compensar. Foi bom mesmo.

Do ponto de vista prático, voamos direto pra Paris e dormimos uma noite lá, no maravilhoso CitizenM, do lado da Gare de Lyon, para matar saudades deste hotel diferente, que tem uma cama gigante, macia e inesquecível. A rede agora tem filiais em muitos locais, incluindo 5 em Paris. Neste dia, que chegamos ao hotel já no início da tarde, só passeamos pelos arredores da estação. Cedo, no dia seguinte, seguimos para Dyjon de trem, aproveitando o dia todo por lá. Depois alugamos um carro por dois dias para acessar a Borgonha com mais liberdade. Passamos um dia inteiro em Beune e no outro na rota dos vinhos. De volta para Paris, também de trem, passamos 4 dias vendo exposições e voltando em muitos cantinhos que amamos, tirando as mesmas fotos e incrivelmente ainda nos maravilhando com novos ângulos e pequenas descobertas.

Paris D1
Perto da Gare de Lyon visitamos o Promenade Plantée, um jardim suspenso sobre uma linha de trem desativada, que não conhecíamos. É um lugar muito agradável, com ateliês diversos na base da estrutura (Viaduc des Arts). A luz do pôr do sol, embora com o dia nublado, estava linda ali. Também vimos a Rua Crémieux, famosa por suas casinhas coloridas (pena que estava já quase escuro) e demos uma olhada no Le Train Bleu, um restaurante lindo demais, dentro da estação, mas que achamos muito formal para o que queríamos para aquela noite. Acabamos escolhendo um café aletório na redondeza, mas que tinha ótima comida típica francesa, como costuma ser em quase toda Paris. Obs: somos viajantes que não reservam todas as refeições em locais especiais. Gostamos, em muitas ocasiões, de só olhar, gostar do ambiente e do cardápio e apostar. Desta vez usamos muitas vezes o chat GPT para nos dar uma noção da avaliação dos restaurantes ao redor de cada local que estávamos e achamos que deu bem certo.




Crémieux




Dijon D2
Dijon é muito bonita. O centro histórico é pequeno, todo “caminhável”, com construções belíssimas. Começamos fazendo a rota da corujinha (um trajeto para não se perder nenhuma das atrações da cidade medieval, se guiando por corujas douradas gravadas no chão), mas no fim fugimos das sinalizações, distraídos com lojinhas e mercadinhos de Natal. Tem um aplicativo baratinho, onde podem checar as orientações e descrições. Acabou sendo bom só para checar se não tínhamos perdido nada – basicamente o museu de Belas Artes (grátis), o palácio dos duques de Borgonha, as igrejas e as lojas das mostardas famosas como a Edmond Fallot e a Maille.











Ficamos hospedados no City Loft Appartaments. Super bem localizado e muito arrumadinho, pertinho de um estacionamento gigante que atende a cidade histórica. Além disso, os funcionários foram muito gentis comigo, me enviando pelo correio para Paris, em tempo do meu retorno ao Brasil, uma hipopótama bailarina que eu tinha esquecido no quarto. Estava arrasada de perder a mais nova aquisição para minha tão particular coleção.

O mercado de Halles, no centro da cidadela, é bem bacana, onde se pode comer coisas de toda a França, queijos, trufas, frutos do mar etc., incluindo ostras de Cancale. Funciona só até as 13:30, mas é cercado por alguns cafés, bares e bons restaurantes. O melhor que experimentamos foi o Le 314, que apesar de um serviço ruim (pouquíssimos graçons) tinha uma comida maravilhosa e uma decoração muito charmosa (se chama 314 porque é a distância em km exata do restaurante até o centro de Paris). Na frente dos Correios (que também é um prédio lindo e que estava todo iluminado) tem outros lugares interessantes para comer e beber. Fomos em um Pub legal ali, de frente para o show luminoso e jantamos muito bem em um árabe pequenininho, o Les Olives.






Beune e arredores. D3 e D4.
Nestes dois dias utilizamos um carro alugado.
Observações sobre aluguel de carro na Europa: muitas locadoras exigem a carteira internacional, que no Brasil é emitida ainda em papel e leva 10 dias pra ser entregue. A nossa estava vencida e não tínhamos tempo para renovar. A saída foi fazer uma tradução certificada, pela internet mesmo, que entregam em 24 horas e custa mais barato que a PID. Mas tem mais um detalhe importante, que quase nos pegou. Na França, especificamente, exigem a carteira de motorista do país (a normal) na apresentação física, sem negociação. Não aceitam ver no nosso aplicativo, mesmo que você tenha a internacional física ou a tradução. Em resumo: leve as duas carteiras físicas. Se não tiver tempo para tirar a internacional, faça a tradução certificada e de preferência imprima também.
A estrada é super boa, fácil de dirigir com GPS, e as vinícolas ficam nas pequenas vilas alcançadas pela D 974. Pode colocar no GPS a vila de Vosne-Romanée ou mesmo a Romanée Conti, vinícola mais famosa da região, que você vai estar na rota correta. Outro lugar bonito é o Chateu de Vougues, que vale a visita mesmo que não se deguste. E também o vilarejo Nuits-saint-Georges onde ficam o Imaginarum e o Cassissium. Todos estes locais podem também ser visitados de bicicleta, em roteiros variados, especialmente nas estações mais quentes. Deve ser bem legal.











Obs: muitas vinícolas não trabalham nos domingos. Levem isso em consideração para o roteiro. Fizemos a opção de provar mais diversidade, então em Beune degustamos no Marche o Vin e na rota dos vinho no Imaginarium, que é tipo um museu interativo também.
Beune é o lugar mais importante da Borgonha, uma cidade muito lindinha, que tem como principal atração um hospital, o Hospice de Beune. Estranho, né?! A história é fantástica. Lá pelo ano de mil oitocentos “e bolinhas”, um casal decide construir um hospital para tratar os doentes sem recursos financeiros. A esposa era a inspiração e força motriz. Quase quarenta anos mais jovem que o marido, como dizia ele, ela era a única estrela guia da sua vida. Ela tinha a energia e as ideias, mas era ele quem tinha recursos e, principalmente, muitos bons relacionamentos com nobres e políticos. Conseguiram construir algo magnífico, que se mantinha com doações, incluindo a produção de vinhos, leiloada até hoje na terceira semana de novembro. Esse leilão é o principal evento anual da cidade e destaque no mundo dos vinhos. Neste ano arrecadou cerca de 18 milhões de Euros 😳, dos quais 400 mil foram para o hospital que ainda existe, agora em um prédio mais novo e moderno. O prédio antigo virou o museu que visitamos. Outra coisa que faziam para manter a filantropia era tratar os ricos e nobres, em enfermarias menores e mais sofisticadas, cobrando honorários altos e destinando parte da remuneração para tratar os pobres de graça. Além de tratar os doentes, também distribuíam pão diariamente aos mais necessitados. O trabalho da assistência era basicamente exercido por freiras dedicadíssimas e metódicas. Sensacional, não acham?










O hospital sobreviveu às guerras e conflitos, tendo sido inclusive esconderijo de soldados da resistência na segunda guerra mundial. Todas as enfermarias ainda estão intactas e disponíveis para visitas, assim como a cozinha e a farmácia, com o jardim anexo onde eram plantadas as ervas medicinais. O audioguide vai narrando a história contada pelo casal. Eu adorei a visita. Fora que o prédio é lindo, com um telhado colorido típico, super preservado.
Sobre os vinhos da Borgonha:
Foram os monges, os primeiros fabricantes de vinhos da região, que desde muito cedo identificaram que cada pedacinho de terra ali produzia vinhos muito diferentes, apesar da mesma uva plantada, em geral Pinot Noir para os tintos ou Chardonnay para os brancos (se a uva não estiver discriminada no rótulo em um vinho da Borgonha pode-se assumir que sejam estas uva. Cada clos (como são chamados estes pedacinhos de terra) pode determinar vinhos de altíssima qualidade, ou de qualidade mais mediana ou até mais “vulgar”. Assim classificam os vinhos em categorias ou apelações: os Grand Crus os mais raros (somente 33 produtores), os Premier Crus logo abaixo, depois os das pequenas vilas e finalmente os regionais. Interessante que um mesmo clos pode ter mais de um produtor, que fazem vinhos diferentes, mas classificados como da mesma qualidade. São vinhos AOC, ou seja, tem suas origem controladas rigidamente.




Os Grand Crus são muitíssimos caros. Já os Premier Crus ainda é possível encontrar alguns mais acessíveis. De qualquer modo os regionais ou os das pequenas vilas já são espetaculares, e mesmo eles nem tão baratos, porque afinal a produção costuma ser pequena e quase nada exportada. Ahh… e tem um jeito de ler os rótulos. O nome da vinícola vem destacado acima ou só no final do rótulo. A vila ou a região aparecem em letras maiores no meio, antes da classificação, se for um Grand ou Premier Cru. Quando tentamos encontrar os vinhos de lá pelo aplicativo do Vivino, quase sempre ele não reconhecia o rótulo e acabamos registrando pela primeira vez vários vinhos que provamos. E nossa avaliação destes vinhos nunca foi menor que 4 (a escala vai até 5)😋. Meu marido, que nunca curtiu um Pinot, voltou encantado. Os brancos também são fantásticos.
As vinícolas podem ser identificadas por seus murinhos baixos e seus portões na entrada de cada clos. Alguns são bem bonitos e outros bem discretos, como o da própria Romanée Conti, que produz o vinho mais caro do planeta. Podem parar e caminhar pelas pequenas estradas, tirar fotos, mas não entrar nos pelos portões.




Outra aventura que fizemos por lá foi a “caça as trufas”. Agendamos pelo booking na Maison Aux Mille Truffes. Foi muito interessante entender melhor este fungo, que contaminam as raizes de algumas árvores, especialmente carvalhos, produzindo hifas gigantes, que se espalham superficialmente pela terra, até bem longe destas raizes originais. Essas hifas produzem “frutos” que são as trufas. As hifas com o tempo morrem largando seus frutos bem superficiais no terreno. Cães farejadores e fanáticos por estes frutos (sim, eles caçam porque gostam de comer as trufas) são capazes de encontrá-las para os homens. Uma raça específica, os Lagotto Romagnolo (parecidos com um poddle mediano), são os que mais instintivamente fazem isso, não precisando quase de treino. O que nos acompanhou era uma femea fofa e alegre, que rapidamente marcou o local para cavar. Uma pena que estava chovendo bastante. Depois das explicações e a demonstração finalizamos com um almoço todo “trufado”, incluído no pacote, no restaurante da própria Maison, que também aceita clientes que não fazem a “caça” para comer. Há uma lojinha com muitas especiarias. O ambiente é decorado com as raízes das árvores no teto.







Se você está com um orçamento muito tranquilo, talvez valha a pena contratar um dos passeios guiados da Juliana Lins Cruz. É uma brasileira que vive na Borgonha, tem um blog (VemPraBorgonha) e trabalha com turismo de vinhos de lá. Troquei mensagens com ela mas seus honorários estavam fora das minhas possibilidades nesta viagem. Ela me pareceu muito profissional e perfeita para nos ajudar a conhecer bem a região e os vinhos.
Cheios de vinhos na mala, deixamos o carro e seguimos de volta para Paris de novo de trem.
D5 – 9. Paris de novo.
Nossa programação desta vez era ver as luzes de natal, os mercadinhos, a Notredame já reinaugurada e visitar museus. Ficamos no Aparthotel Adagio Tour Eifel, no 15o arr., teoricamente complicado e distante, mas foi o que eu consegui em cima da hora, dentro do meu orçamento e com notas surpreendentemente boas de localização no booking. Entendi melhor quando estava lá. Fica em Grenelle, muitas ruazinhas dão na torre, o que faz com que cada passeio seja uma aparição. Andando por ali descobrimos muitos outros ângulos istamagráveis da dama de ferro. Além disso, o bairro tem diversos restaurantes e um grande centro comercial e acesso fácil à duas linhas de metrô. O quarto era enorme para os padrões de Paris e muito limpo. Valeu.
No primeiro dia ficamos desfrutando do bairro até o anoitecer e seguimos a pé, pela beira do Sena, para o mercado de Natal do Jardim de Tullerie. Os mercados natalinos em Paris e Dijon não são aquela graça dos alemães, me decepcionei um pouco. Mas tinham um gostoso Vin de Chaude (nosso famoso quentão ou em alemão Gluhwein – embora sem as lindas canequinhas típicas colecionáveis) e boas comidinhas. Depois fomos vendo as vitrines lindíssimas pelo caminho até chegar na Galeries Lafayette, sempre um espectáculo a parte em relação a decoração de Natal. Tinha até uma ponte suspensa transparente para se tirar fotos perto da árvore central, super colorida.




Nos outros dias revimos o D’Orsey e o Louvre, pelos os quais mantivemos o mesmo encanto e descobrimos novas obras e histórias. Particularmente no Louvre, as esculturas francesas são lindas e muito subestimadas. Ficam em um local soberbo, claro e arejado, realmente especial dentro daquele museu. Adoramos. De noite, um dia para a Champs Elysees, que estava maravilhosamente adornada com luzes em todas as suas pequenas árvores peladas pelo inverno, que piscavam em diferentes cores e ritmos a cada horário. Outro dia para o Quartier Latin, onde jantamos no fofo Bistro des Livres, depois de revisitar a Notredame, agora clara, uma igreja de luz. As paredes perderam aquele negror do tempo, ficou muito mais bonita. (Obs: a Notredame de antes do incêndio me oprimia, não gostava de entrar lá… ia só por conta do meu marido que a amava).












Também conhecemos a Fundação Louis Vuitton, que fica em um bairro lindo, ao lado do Jardin d’Acclimatation. O passeio entre a fundação e a estação do metrô já é super agradável. O prédio do museu é maravilhoso, lembra um pouco a Walt Disney Concert Hall em Los Angeles. Mas o que eu mais gostei foi uma escadaria enorme pela qual escorre água infinitamente, me deu uma sensação de paz deliciosa ficar olhando para ela.
Além disso a exposição atual me surpreendeu demais. Se tiverem a oportunidade, em qualquer lugar do mundo, de conhecer os trabalhos do Gerhard Richter, um alemão inacreditavelmente talentoso e versátil, não percam. Ele já fez um pouco de tudo, mas seu dom de misturar cores e de criar pinturas realísticas é de deslumbrar qualquer um. São 60 anos do seu trabalho nesta exposição, que ainda vai até março de 2026. Um dos destaques para mim foi um dos quadros que pintou de sua filha, vestindo um sueter estampado de vermelho. O cabelo, a roupa, difícil entender como consegue capturar tantos detalhes… Talvez a explicação venha também do seu método de trabalho. Uma de suas telas gigantes, logo no início do trajeto da exposição, é um traço amarelo sobre um fundo vermelho, feito com um pincel grosso. Com a foto deste borrão na mão, e agora com pequenas pinceladas, ele torna macroscópico cada detalhe da imagem da tela e das tintas que derivaram deste simples ato de borrar um traço. E os abstratos? Fazem com que a gente pare na frente e tente entender melhor o grande impacto positivo da escolha das cores. Há muita energia ali. Apaixonei.





É claro, voltamos a Marais nosso bairro predileto. Comemos crepe gigante da Loulou na Merchand des Enfants Rouge, olhamos de novo todas as pequenas galerias de arte em volta da Place de Vosges e nos chocamos com os preços da Merci (uma loja linda e descolada mas onde um chaveiro não custava menos que vinte euros).







Juramos que não iríamos comprar nada, mas acabamos nos rendendo, mais uma vez, na Uniqlo, onde qualidade não quer dizer preços altos. Além, é claro, do peso extra dos vinhos da Borgonha. Aí precisamos despachar mais uma mala, o que antes não era nossa ideia. Mas consegui pontos na Flying Blue e ficou de graça (fica a dica para quando você também não resistir).
De volta refeita e feliz, “vamos que vamos” porque temos que planejar e pensar quais aventuras de trabalho e de diversão escolheremos para 2026. Boas festas para vocês!
