Quando procuro imagens sobre equidade, praticamente só encontro aquela figura que há mais de 20 anos me encantou. Estava em um curso sobre gestão em saúde e o professor abordava os valores do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nos apresentou uma imagem de uma cerca, que não permitia a visão de um jogo de futebol para muitos torcedores, pois eles tinham alturas diferentes e estavam todos no nível do chão (igualdade). Ao lado, a mesma imagem, mas os mais baixos tinham pequenas escadas, com degraus de diferentes tamanhos, dependendo da altura de cada um. Tratando “o diferente” de forma diferente, a visão total do campo era possível para todos (equidade).
Essa imagem boba me impactou de uma forma absurda. Foi capaz de traduzir em uma única palavra tudo que sempre tentei priorizar em relação à assistência aos pacientes em diálise, uma população com uma baixíssima expectativa de vida, cuja qualidade de vida, durante os poucos anos que ainda viverão, deveria ser o objetivo principal de todos envolvidos com este tratamento.
Explicando melhor: os pacientes com falência renal crônica, dependem da diálise ou de um transplante para sobreviver. Alguns pacientes vivem muito, mas, em média, a sobrevida estimada após 5 anos em diálise é em torno de 60% (no Brasil e mesmo em muitos países desenvolvidos). Trabalho cuidando deles, de diversas formas, há mais de 30 anos. Esse é meu lado A.
Além de prologar o tempo de vida, oferecer um atendimento adaptado para o que é importante para cada indivíduo em diálise deve ser nosso objetivo principal como profissionais e gestores. Exemplos importantes são as possíveis adaptações de terapias e horários para uma chance de poder trabalhar, de ter uma vida social ativa e de viajar. Também os esforços redobrados de governança clínica para garantir um estabilidade na saúde e, com isso, uma menor chance de hospitalizações. E o mais importante – prover tratamentos que minimizem sintomas como fadiga, mal estar e dor.
Vocês podem estar estranhando a questão de querer trabalhar, diante dos desafios da rotina de tratamentos. Mas ter um trabalho pode ajudar financeiramente e emocionalmente os pacientes, trazendo maior autoestima e sentido para a vida. O futuro destes pacientes precisa ser percebido por eles com a maior naturalidade possível, e trabalhar pode fazer toda diferença, até na sobrevida.
Uma história gostosa, que guardo para sempre, foi a de um jovem universitário, estudante de física, surpeendido pela doença. No seu primeiro dia de tratamento de hemodiálise, disse a ele: “O segredo é não focar nesse tratamento, venha aqui e faça o que tem que fazer com responsabilidade, como se fosse “escovar os dentes”, uma obrigação com a sua saúde. E viva sua vida lá fora.”
Mais de 20 anos depois, já como gestora, encontro ele ótimo e o parabenizo por estar tão bem. Ele me fala: “Alguém me disse que viesse aqui e fizesse a minha parte, como “escovar os dentes”. A vida é para ser vivida lá fora.” Ou seja, ele nunca esqueceu.❤️
Equidade na gestão em saúde evolve gestores muito comprometidos com a justiça, que tenham como valor pessoal a generosidade e, não se enganem, que também tenham muita coragem. Isso sem esquecer da sustentabilidade dos sistemas, pois sem isso não avançamos com responsabilidade. Então, estamos sempre na luta, “equilibrando um monte de pratinhos”. Mas penso nisso como uma missão e sigo com muita esperança. Tanto que estou aqui escrevendo isso pra vocês.
Que esse conceito permeie nossas atitudes todos os dias, para todas as nossas decisões. Tratar o diferente de forma diferente, pensando no que é importante para cada um, serve como um orientador para as famílias, para a convivência com amigos, para decisões e atitudes no trabalho e também nas comunidades. Viva a diferença e nossa capacidade de lidar melhor com ela!
prime! 71 2025 Da coleção de histórias de viagens – Turquia com as amigas. Eu e minhas duas Marias. superior
CurtirCurtir