Da coleção de histórias curtas – A maior aventura com meu marido “bocudo”.

Os semelhantes se atraem. Fato. Eu e meu marido, 40 anos de parceria, não poderia ser diferente, embora em uma primeira olhada possa parecer que não temos muita coisa em comum. Penso que nossa principal semelhança é a transparência. Difícil disfarçar nossas emoções e somos meio inclinados a alguns “sincericídios”. No entanto, eu consigo guardar segredos e tenho bom senso em não comentar algo sensível, mesmo quando não me pedem. Ele não. Você precisa falar muito a sério com ele para que se lembre de manter um segredo “a sete chaves”. E se não alertá-lo, qualquer fofoca, segredo de estado, festa surpresa ou mesmo comentários displicentes vão vazar na primeira oportunidade.

Já passei vários apertos com ele e sua boca grande, mas o mais icônico e inesquecível foi em um jogo de futebol dos meninos pequenos.

Pai que joga futebol usualmente é um torcedor exaltado nos jogos de seus filhos. Dá palpite, grita, quer ser treinador mesmo sem ser. Meu marido é assim e até aí, tudo bem.

Estávamos assistindo ao campeonato e o clima estava tenso, o time do mais novo perdendo. O sujeito, como esperado, gritava exaltado, reclamava e palpitava. Só que uma mãe, que estava bem atrás de nós na arquibancada, começou a reclamar da exaltação dele, em voz alta, apesar de o seu filho fazer parte do mesmo time. Eu alertei: “Deixa pra lá, não fala nada, é a mãe do fulaninho de tal, aquela que eu já te expliquei que é meio maluquinha. Eu já tinha contato uma história para ele sobre essa mãe, que eu nem me lembro mais, só sei que realmente eu achava ela meio, digamos, excêntrica.

Inicialmente, ele até aturou e não retrucou. Mas, como de jeito nenhum continha seus comentários e a sua torcida em voz cada vez mais alta, a mãe insistiu em criticar: “Dá para parar de falar não? Que absurdo esses pais que querem se meter assim no jogo”. Tá… ela não falava diretamente para ele, mas falava para ele ouvir. E aí não deu mais certo. Ele se virou para trás e veio a “pérola” do bocudo: “Ohhh, moça… você não está vendo que seu filho e o meu filho são do mesmo time ? Que eu estou defendendo o jogo deles, torcendo para eles? Bem que minha mulher me disse que você era meio maluca!”, ele exclamou e se virou para frente de novo.

Gente… isso mesmo… ele falou na lata para a pessoa. Eu não sabia o que fazer. Tentei fingir que não tinha ouvido, dei um beliscão nele e fiquei estática, também olhando pra frente. Mas ela me cutucou literalmente: “Você disse para ele que eu sou maluca? Posso saber por quê?”

E adeus jogo de futebol. Tive que manter um diálogo insano com a tal mãe enraivecida, dizer que meu marido era quem estava doido, que eu nunca tinha dito aquilo… E ele quietinho, virado para frente e rindo com o canto da boca. E eu sem saber mais o que dizer. Ainda bem que só ficou nessa discussão e meu filho não era muito amigo do rapazinho filho dela. Pouco tempo depois ele mudou de escola. Assim, fiquei livre de outros constrangimentos.

Escrevendo isso aqui, me lembrei de que já tinha trazido à tona outras histórias com mães de amiguinhos dos filhos. Fase engraçada essa, quando em um perído bem específico da vida, aquele do exercício de ser acima de tudo pais e mães, conhecemos muita gente nova. Algumas vamos achar “excêntricas” e também vão nos estranhar, mas outras, pelo contrário, vamos levar no coração e para a vida para sempre. Tenho a felicidade de ter alguns amigos assim.

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