Da coleção de reflexões – o meu gap feminino

A menina médica fingia que estava tudo bem quando, no corredor do hospital, o parente do paciente se dirigia a ela para pedir uma troca de fraldas. Exatamente ao seu lado estava um técnico de enfermagem de plantão, mas o parente nem se preocupava em olhar para os crachás, escolhia o cargo pelos seus preconceitos enraizados. Era mais provável que um médico fosse homem. Era a centéssima vez que algo semelhante acontecia.

A mulher executiva fingia naturalidade quando homens executivos faziam comentários descabidos na sua presença, sobre os atributos físicos de outras mulheres da empresa. Temia que uma reação de rejeição às piadas e fofocas impertinentes provocassem sua exclusão no grupo e prejudicassem seu lugar de fala sobre outros assuntos importantes e pertinentes. Até piada sobre estupro chegou a ouvir.

São quase sessenta anos vivendo e testemunhando coisas assim, como a maioria das mulheres maduras. Não posso dizer que o respeito às mulheres não melhorou. Vejo uma nova geração de mulheres mais livres e empoderadas, o que me faz ter certeza que avançamos, mas não na velocidade necessária para as próximas gerações. Infelizmente imagino que minhas netas e bisnetas ainda sofrerão do tal do gap feminino, que parece começar lá na infância, fazendo as meninas ter crenças que as influenciarão por toda a vida. Isso nos convoca realmente a refletir e pensar como seria possível ainda contribuir para um ambiente que amplifiquem os sonhos e os destinos da mulheres.

A coisa parece tão inconsciente que pensando sobre o meu próprio gap, mesmo apostando que não gostariade ser CEO de uma companhia, astronauta ou reitora de uma universidade, não tenho certeza porque, desde sempre, rejeitei essas hipóteses. Não foi por falta de pais que apoiasse minhas decisões, mas ser médica já me parecia desafio suficiente, o teto máximo para minha ambição de independência.

Além desse mistério inconsciente, que em algum momento sugere à mulher que ela não deve acreditar em toda sua potencialidade, acredito que também nos atinge uma falta de agressividade necessária, um excesso de tolerância e um perfil demasiadamente conciliador, que, com certeza, é um traço de submissão dos tempos das cavernas. Percebo, só nessa idade, que tentei a vida inteira contornar os assédios, injustiças, preconceitos, abusos e desatinos, a maior parte do tempo com uma gentileza sem sentido, sem marcar uma posição mais firme. Agindo desse modo, não dei uma chance para que o outro pudesse aprender. Meu potencial transformador esteve inibido nessa área.

Pode ser que ao me ver protestar claramente sobre sua atitude, o acompanhante do paciente me achasse uma grossa recalcada, uma pirralha médica enlouquecida. Mas também pode ser que me ouvisse e até refletisse, ou mesmo, simplesmente, se lembrassem de olhar os crachás em uma próxima vez.

Pode ser que eu perdesse o cargo de direção na minha companhia. Mas pode ser que, com o choque da minha reação incomum, outros diretores se envergonhassem de suas falas e comentários, criando um ambiente menos hostil.

Interessante como as coisas se conversam e as sintonias na nossa vida são fantásticas. Quando me dou conta desse meu padrão, também havia começado a jogar Beach Tennis. Ali descobri que com gentileza não se ganha um jogo. Aprendi a atacar na hora certa, sem cerimônias, e ficar feliz. Antes tarde do que nunca. Então vamos lá perder também essa timidez de se posicionar para coisas tão importantes. Pode ser só mais um tijolinho na construção de um mundo mais decente para todos os sexos e gêneros, mas cada um precisa fazer sua parte. Fica aqui a minha promessa de não deixar passar mais nenhuma chance.

Reflexões!

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