Passei a maior parte da minha vida escolar no CEN e assim foi para a maioria dos alunos que estudaram nesse colégio. Muitos se mantiveram próximos na vida adulta, mas outros se distanciaram em medidas diferentes e por diferentes motivos.
Nesse final de semana completamos 40 anos de formados e, graças aos esforços de alguns amigos amados de todos e festeiros, nos reunimos para comemorar a data e a vida. Atestamos as rugas em comum e os cabelos brancos, brindamos e dançamos, e especialmente demos abraços apertados em todos, muito conscientes da importância desta escola, diante de tudo que vivenciamos depois que saímos dali.

Muitos dos ex-alunos são pais e mães, alguns já são avós, alguns até enlouqueceram, outros já se foram. Sabemos que somos um grupo bem diverso, mas com muitas características em comum que se estabeleceram a partir da intensa convivência, durante muitos anos, suportada por uma escola com valores especiais.
Tanto tempo de convivência escolar pode rotular alguns jovens, dando pouco espaço para mudanças naturais dessas crianças, mas acredito que no colégio onde estudamos recebemos uma formação de base tão única e tão empoderadora, que dificilmente um aluno que ali esteve, naqueles anos, não reconhece as diferenças estruturais do seu poder de raciocínio, sua capacidade de adaptação, sua criatividade e a multiplicidade da sua formação humana, quando comparada aos alunos formados por outras instituições mais convencionais. Penso que por isso as possíveis mágoas causadas por essa intensa convivência não abala nossa sensação de identidade, uma identidade da qual nos orgulhamos. Então, mesmo com alguns estranhamentos entre uns e outros, somos amigos para CENpre.

A escola que estudamos era particular, mas uma fundação, formalmente sem fins lucrativos, cujo o objetivo era centrar a educação nos alunos, experimentar novas formas de ensinar (experimentais mesmo) e principalmente colocar o conteúdo acadêmico formal como somente um dos pilares do processo de educação dos seres humanos que lhes foram confiados. Moderna demais, mesmo hoje, não?!
Nessa escola de tempo integral, naqueles anos existiam matérias obrigatórias muito interessantes como “Educação para o Lar”, e tanto os meninos quanto as meninas aprenderam coisas extraordinárias, como bordar e fazer artesanatos de sisal. Entalhar madeiras, manejar argila e fazer outros experimentos eram também atividades constantes e curriculares, pois a arte e os laboratórios eram coisas levadas muito a sério. Aprendemos Matemática básica usando pinos e cartelas coloridas e, mais do que Português, tínhamos muitas aulas de Literatura, para mim intensas e maravilhosas, onde visitamos diversos autores e discutíamos o motivo de tudo. Acredito que por isso maioria dos alunos do CEN escreve muito bem, e apostaria que quase sua totalidade não conhece quase nenhuma regra de gramática. A escrita correta simplesmente se estabeleceu nas nossas mentes a partir de muitos textos lidos e escritos.
Além do obrigatório inglês (esse não foi uma grande coisa ali), aprendemos também um pouco de Francês (sei diálogos inteiros até hoje) e tivemos aulas de Filosofia no ensino médio. Claro que era um desafio estimular adolescentes nesse conteúdo, então a aula podia ser substituída (por livre escolha do aluno) por uma leitura rápida de qualquer artigo na biblioteca e um resumo do conteúdo. Assim na sala de aula só se mantinham os realmente interessados. Os agitados e hiperativos ficavam liberados para seus jogos de bolas e outras atividades compatíveis com seus estados de ânimos.
Não havia dever de casa e nem notas em números. No ensino fundamental recebíamos o boletim com os conceitos: “Ótimo”, “Bom”, “Regular”, “Sofrível” e “Insuficiente”, sendo que somente os dois últimos ofereciam os riscos de desaprovações no quesito conteúdo (que era um dos conceitos, no meio de cerca de 10 outros de temas cognitivos e comportamentais). Eu nunca havia decorado nenhuma página de nenhuma matéria até a universidade, quando tirei um 3 no primeiro teste da faculdade de medicina, pois lia o livro de anatomia como se lia um romance.
Não me surpreende notar que não identifico na nossa turma ninguém sem nenhum propósito, sejam homens ou mulheres, pois a necessidade de realizações foi enraizada em nossas mentes como algo vital. Assim como não é de se estranhar que tenhamos entre nós muitos líderes, mesmo entre o time mais tímido na época do colégio. Também acho totalmente compreensível que muitos casais tenham se formado na escola ou ao longo do tempo, mesmo muito depois dos anos da escola, atraídos também pela força dos mesmos princípios e formação. Para muitos foi como voltar pra casa.
Fomos muito abençoados pela vanguarda dos profissionais que estiveram a frente deste projeto. Não saberia dizer seus nomes sem faltar muitos importantes e não gostaria de enaltecer somente as lideranças mas todos aqueles que se dispuseram a ousar trabalhar em um lugar assim, em uma época de ditaduras, culto à tradição e muitas convenções. 40 vivas para eles!
Gratidão!
Lindo depoimento!
Me senti dentro dele,em cada palavra,em cada vivência.
Seremos para CENpre unidas por nossas histórias.
CurtirCurtido por 1 pessoa