O sul da França é maravilhoso. Tanto a Provence e arredores, quanto a Côte D’Azur. Mas ainda não tinha me aventurado em Saint Tropez. Achava, que assim como Ibiza, seria uma cidade mais para curtir noitada e para quem gosta de glamour. Mas já que eu tinha gostado de Ibiza, com suas lindas praias e nem tanto glamour, e já que tinha um tempinho sobrando nessa última semana de viagem pelo sul da França, encaixei duas noites por lá. Todo esse “já que” talvez não tenha dado tão certo como eu esperava, mas acredito que mesmo as experiências ruins podem ser enriquecedora de um jeito ou de outro. Vamos lá contar e ver o que você acha. Pelo menos lendo esse post poderá melhor se preparar.

Saímos do aeroporto de Nice de carro rumo a Saint Tropez em uma segunda-feira. Tranquilo de chegar. Alugamos um studio (Stone Studio) muito “gracinha”, em um local perfeito, bem perto do centro, mas em uma área residencial longe do tumulto. O dono era um senhor agradável e falante. Conquistou meu marido quando reclamou que o Brasil havia roubado da França o seu melhor jogador, o coroa Payet, que era a mais nova esperança do Vascão, time de coração de todos lá de casa.




A cidadezinha histórica é muito bonita, com ruas e casas de pedras que tanto nos encantam, muito limpa e arrumada (vimos até equipamentos que lavam as ruas com sabão cheiroso), jardins bem cuidados, árvores frondosas e aquele mar de um azul dramático beirando tudo. A praia de pedrinhas na frente da parte principal da cidade é simpática, não muito grande e se encerra em um calçadão que serve de porto para muitos iates espetaculares, uma atração a parte. Tem muitas lojas charmosas, bons restaurantes e pequenas galerias de arte.





Demos a maior sorte, pois nas terças-feiras acontece uma enorme feira na principal praça de Saint-Tropez, com produtos de locais, comidas, bebidas, artesanatos e até roupas. Tudo de bom! Passamos algumas horas ali, provando um pouco de tudo e comprando um monte de comidinhas e mimos para mim e para a família. Achei até um hipopótamo gigante de palha, apaixonante e devidamente adquirido, apesar do tamanho, para ser o número 151 da minha coleção de hipos (teve protestos posteriores dos meus meninos e suas namoradas, que suspeitaram que se tratava na verdade de uma cotia… rsrs).






Também demos sorte com os restaurantes escolhidos ao acaso. Comemos muito bem em Saint Tropez. A primeira noite em um italiano no meio da cidade histórica, e a segunda noite na beira do porto, frutos do mar. Mas tenham atenção com o horário. Apesar de ser um local “da noite”, isso serve somente para boates e clubes noturnos, pois vimos que os restaurantes fecham muito cedo. Após as 21 horas já é difícil encontrar um local para jantar.

Notamos, desde da primeira noite, que o ambiente lá era diferente das outras cidadezinhas de verão europeu. Tem um “dress code” fielmente seguido pela maioria. Homens de camisas de linho de mangas compridas dobradas, bermudas e mocassins, e mulheres com muito brilho nas roupas e saltos altos. Se soubesse tinha levado um vestidinho brilhoso que nunca tenho oportunidade de usar! Mas ficamos totalmente à vontade, eu com meu vestido coloridíssimo e rasteirinhas combinando e marido de camiseta do Metallica e tênis, que atualmente são nossos uniformes de férias preferidos (já tivemos muitas fases).
Até aqui tudo ótimo. O que não deu tão certo foi a nossa programação de praia em alto estilo. Nos imaginávamos deitados em espreguiçadeiras de frente para o mar da Cote D’Azur, tomando um rosé produzido no local e conversando com “ar blasé” de quem faz isso todos os dias. Vesti até um biquíni que tinha fios dourados para combinar com a programação. Mas foi assim:
Depois de sairmos suados e felizes da vida da feira, decidimos ir de carro conhecer a famosa Pampellone. O plano era viver a experiência de “fazer praia” em um Beach Club desses de filme, que todos cantam e batem palmas cada vez que se abre um champagne. Mas a praia já começou com uma grande dificuldade para estacionar, o que irrita bastante qualquer pessoa. Mas isso não seria nada, se não fosse a série de episódios de grosserias dos funcionários dos locais que tentamos ficar e o pagamento de valores exorbitantes e inimagináveis, apesar desses tratamentos desprezíveis. Não vou descrever grosseria por grosseria, pois seria cansativo para vocês. Mas acreditem que foram muitas e seguidas. Sem falar do preço…pensem um valor bem alto e multipliquem por dois. Mas posso garantir que tentamos sublimar bastante tudo isso antes de desistir da nossa programação.
É importante, além da comentar nossa resiliência inicial, ressaltar que o ambiente também não era agradável. Havia um certo “ar de decadência”, depois muito bem definido por meu marido. Mulheres maravilhosas com homens com o dobro da idade e o triplo da feiúra, muitos jovens mal educados, pais de família exibindo enormes cordões e pulseiras de ouro. Particularmente nos fez muito mal a figura de uma senhora que estava bem perto de nós. Estava em um estado de esqualidez impressionante, como uma pessoa que ficou meses em um campo de concentração, o que contrastava com próteses mamárias enormes e rosto plastificado muito maquiado. Seu marido ao seu lado, tinha uma aparência “normal”, no entanto nos impressionou que não trocaram uma única palavra o tempo todo que estivemos ali. Tudo isso que descrevo devem ser preconceitos, eu sei. Mas preciso ser honesta também com esses meus conceitos pré concebidos e como eles fizeram eu me sentir, pois essas coisas definem nossas experiências também, além dos nossos aprendizados.

Depois de muito mal estar, a cereja do bolo, foi a garçonete cismar de nos ajudar a virar as cadeiras a favor do sol e por conta disso derrubar parte de nosso vinho caro e maravilhoso no chão. Minha reação foi a de um acesso de riso e a do meu marido de um acesso de raiva.
Agora entendo que ele tinha chegado ao seu limite. Tem horror a soberba tanto quanto, mas eu vivo tentando ver graça nas coisas. Essas diferenças de espírito entre nós geralmente são um desastre. Cada um de nós insiste que o outro veja o mundo diferente, do jeito que o outro vê. Coisas de quem convive há muito tempo e por vezes se embola na tal da individualização necessária de cada pessoa de um par. Agora escrevendo a cena, estou rindo de novo… mas não se iludam…brigamos muito feio. Estragou nosso dia e acabou que não curtimos o mar lindo, realmente de uma transparência e azul espetaculares, e assim encerramos precocemente nossa praia em Saint Tropez. Ahh…pelo menos presenciei a cena da abertura do champanhe. E também teve um saxofone lindo tocando por ali. Mas foram “flashs” de tudo o que imaginávamos de bom, diante de um tempo muito maior de muito mal estar e desprazer.
Então, se quiser ir em Saint Tropez ver a lindinha cidade que realmente atendeu minhas expectativas, minha sugestão é não arriscar um Beach Club sem ter referências. A não ser que seja imune a esses aborrecimentos que contei e considere também os meus preconceitos que podem não ser os seus. Se eu fosse de novo estenderia a minha toalha na praia da cidade mesmo.
Mas você deve estar se perguntando o motivo de termos nos arriscado em tal programa. Porque uma outra vez que fizemos algo semelhante, tínhamos nos divertido muito. Foi no hotel Fasano em Angra, está tudo no post https://anabialadob.com/2021/04/18/da-colecao-de-viagens-quem-quer-ser-milionario-um-final-de-semana-no-fasano-frade/. Foi diferente, basicamente porque tivemos um tratamento compatível com a nossa aventura e nossas despesas. Naquele final de semana achamos muita graça dos comportamentos, costumes e vestimentas, criei fantasias e histórias, observamos, comentamos e principalmente rimos muito.
Como terminou tudo? Meu marido tem apelido de Ogro Fofo, tem mil qualidade e é super amoroso, mas pode ser terrível muitas vezes e pode demorar para melhorar. Mas a sorte me ajudou e após essa praia desastrosa, fomos passear na cidade e encontramos nada mais nada menos que Érick Jacquin, ídolo do cara, que não perde um programa MasterChef. Então o sorrisão voltou pro seu rosto para uma foto histórica.

Tudo já mais em paz, ainda vimos um por do sol lindo e a noite animada nas ruas, bebemos mais uns bons roses de Provence e passeamos no porto olhando o povo jantando e dançando nos iates, como quem olha gente em personagens de um circo.

Dali pra a linda Nice que eu conto em outro post.