A primeira vez que estive em Paris foi em 2011. Meus filhos já eram adolescentes e nos permitimos sair na primeira viagem em casal após muitos anos de aventuras com crianças. Nunca tínhamos ido à Europa e o roteiro foi uma coletânea de opiniões de amigos. Me deparei com unanimidade de Paris como o lugar que havia conquistado o coração de todos. Eu nunca havia sequer pensado em visitar a França, tinha certa antipatia e nenhuma curiosidade. Mas, considerando a evidente preferência de todos, lá fomos nós.

Nos apaixonamos e sempre que podemos passamos por lá. Na primeira vez ficamos 9 dias, mesmo assim não conseguimos completar o roteiro mais turistão. Depois voltamos sempre por alguns dias, para completar o que faltava e matar saudades dos preferidos. Mas ainda hoje, já tendo passado pela cidade luz seis vezes (meus filhos sempre se espantam com a repetição do destino), saio com “gosto de quero mais” e me devendo algumas incursões.
A primeira pergunta que me fazem. E os franceses?Viagem é experiência, e a minha com os franceses sempre foi muito boa. Sorte? Creio que não. Sei de histórias bem ruins com malandros de grandes centros urbanos (não é diferente em Paris) e de desgastes com grosserias eventuais (algumas dicas, como sempre guardar os bilhetes do metrô e começar falando bonjour, antes de engatar no inglês, são mesmo importantes). Mas hoje tenho certeza que ser antipático não é uma característica do povo francês. Vamos lá considerar que pelo menos seis boas experiências em Paris, sem contar as experiências com outras muitas cidades francesas que já visitamos, seria fugir muito das estatísticas. Então, se você ainda não foi a França, eu posso jurar que é muito possível que você se torne um apaixonado, como eu.
Porque se apaixonar por Paris? Pela arquitetura e monumentos (que proporcionam uma surpresa em cada esquina), pela comida (boa e bonita), pelos cafés lindinhos e espalhados por todas as calçadas da cidade (nos quais pedir somente um expresso é totalmente normal e aceitável), pela facilidade de se deslocar a pé, de metrô ou de trem, pelos museus com obras icônicas e inesquecíveis, mas principalmente pela história. Parece que em Paris nos tornamos testemunhos do tempo.
O que eu penso que não deve faltar na sua visita (não necessariamente nessa ordem de preferência):
1. Louvre por meio dia.
Na minha opinião, um dia inteiro de museu pode ser bem cansativo, e você encontra vários roteiros de como ver o principal do Louvre em meio dia e tenha certeza que será um meio dia fantástico.
Mas, por favor, não se decepcione com o tamanho do quadro da Mona Lisa. Ouço muito isso e me revolto. Não tenho certeza do que levou ao inconsciente coletivo imagina-lá maior do que é, mas com certeza, embora ela seja absolutamente normal de tamanho, é gigante no simbolismo e na quantidade de histórias reais ou imaginárias sobre ela. Fique focado nessa dimensão.
Uma outra história (minha) sobre a Mona Lisa. Na primeira vez que a vi, descobri também o significado mais profundo da palavra equidade, e entendi sua relação profunda com uma outra palavra linda: generosidade. Na frente do quadro há um cordão de isolamento. Atrás dele se amontoa meio mundo de pessoas, todas tentando ver mais de perto e tirar uma foto decente. No dia que estive lá pela primeira vez, uma moça em uma cadeira de rodas tinha o privilégio de ser a única na frente daquele cordão de isolamento. Colocada ali, pelo funcionário do museu, teve a pintura só para ela pelo infinito tempo que quis. Me emocionei com o quadro e com essa visão. Sempre é possível trazer mais para quem de alguma forma tem menos, se tivermos um coração generoso. Aquela moça, com imensas limitações, teve ali o que ninguém podia ter. Palmas para o Louvre.

Minhas esculturas prediletas são a Vitória de Samotrácia (é um susto lindo dar de cara com sua visão majestosa e inesperada em um vão entre escadas) e Psique. As duas provocam um tumulto de emoções em mim. Mas tem muitas outras lindas. As esculturas são o “must” do Louvre. Gaste mais tempo com elas.


O lado de fora do museu também vale inúmeras fotos e um tempo para contemplação. Almoçamos um vez no Café Marly e gostei muito da experiência de estar em uma mesa de frente para pirâmide de vidro.
O Jardin Des Tuileries estará provavelmente em sua passagem de ida ou de volta. Usualmente muito bem cuidado, tem também ângulos ótimos para bons cliques.




2. Um dia pra Versalhes.
Atenção, tem que comprar bilhete de trem de ida e de volta (não é o mesmo bilhete). Pode comprar pela internet antes, se quiser.
Alugue uma bike no palácio e visite os jardins e as atrações externas (Petit Trianon e Grand Trianon), que são lindas. Antes de viajar ou durante sua viagem, relembre um pouco a Revolução Francesa, e leia especialmente sobre Maria Antonieta. Fica tudo mais interessante. Se tiver estômago, pode até visitar em Paris o calabouço onde ela aguardou a sua execução.
Tem restaurantes em Versalhes, mas minha dica seria levar coisas para um piquenique no gramado, na frente do lago. Um vinho e queijinhos franceses, amoras, azeitonas…não esqueça de um lenço grande ou uma canga. Achei divino fazer isso. Deixe o palácio principal para o “grand finale”. A Galeria dos Espelhos é indescritível de linda.





Falando de vinho francês, vou deixar aqui minhas experiências e chocar alguns pelo meu provável mal gosto. Não gosto de vinhos da região de Bordeaux, nem de Beaujolais. Fazer o que? Não tenho experiência com os da Borgonha e visitar essa região está na minha lista de desejos. Mas, por enquanto só escolho vinho francês (tinto) das regiões de Côte du Rhône’s ou Provence, porque acerto mais com meu gosto.
Mas tem uma coisa ótima que amo na Europa, e que pode te ajudar a entender qual vinho você gosta mais. Nos restaurantes quase sempre temos a disponibilidade de muitos rótulos em taças, e assim fica fácil experimentar. Portanto, não arrisque em uma garrafa desnecessariamente, mesmo que muitos digam que algum tipo de vinho é bom… pelo menos até entender bem seu gosto. Gastei um bom tempo tentando “Bordeauxs” até me conformar que realmente não gosto deles. De “Enochatos” o mundo está cheio, e penso que só vale tomar um vinho se você realmente curtir, seja qual for o gosto que você tenha.
Recentemente tenho ficado mais fã dos rosés e dos brancos, ainda mais no verão. Os rosés da Provence e os brancos da Alsácia são os mais maravilhosos do mundo. Se gosta de vinhos e lindas paisagens, pense também na França para esses outros destinos, com ou sem Paris.


3. Explorar o D’Orsey, sem hora para partir.
Para ver principalmente as obras dos impressionistas. Tudo de mais lindo destes artistas está lá: Monet, Van Gogh, Renoir, e muitos outros. Não esqueça de ver a pequena e linda escultura da bailarina de Degas e as pinturas dele. São magníficas. Tem um café bom dentro do museu, de frente para o relógio de vidro, que vale a pena para uma pausa.







4. Entrar no Opéra.
É lindíssima, não subestime. Na saída dê uma passada na galeria Lafayette, que é ao lado. A parte de comidas e bebidas é a mais legal. O centro da galeria é uma obra de arte, olhe para cima. Quase ao lado tem uma Uniqlo grande. Adoro as malhas de lá e o preços são bons.

5. Visitar Sainte-Chapelle, Notre-Dame e a Ilê Saint-Louis.
A livraria Shakespeare and Company é ali pertinho, passe por lá também. Escritores, hoje famosos, como Hemingway, frequentavam essa livraria e dizem que também se hospedavam de graça em um quartinho nos fundos, como um incentivo para seus talentos. Naquela época Paris era o centro da cultura e da arte mundial. Hoje em dia o local ficou bem famoso e tem muita fila para entrar, apesar de pouca coisa para se ver ali dentro (eu tinha a fantasia de ver o tal quartinho). Mas acho legal estar ali na frente e tirar umas fotos, como expliquei, o lance em Paris é a sensação de testemunhar de alguma forma a história.



Sainte-Chapelle é muito surpreendente, uma capela de vitrais. Curta o visual, pois nenhuma foto vai capturar a beleza das luzes naturais naqueles paneis de vidros coloridos.
Notre-Dame é bonita, obrigatória, mas não me sinto bem ali. Coisas de outra vida. Meu marido adora. Então vá, pois pode também se emocionar.
Na ilha tem o sorvete Bertilhon que é muito famoso e bom. Mas depois que descobri o Bashir, esse é que se tornou meu predileto (se você é paulista não vai ver graça já que o Bashir já inaugurou uma filial na sua capital). Tem também acesso para as pontes com cadeados românticos e boas visões do Sena.
E por falar de Sena, penso que o passeio de barco é bem bacana e romântico. Prefira os ao entardecer e escurecer, tem um efeito especial de luzes e cores se modificando. Se puder fazer um jantar a bordo, também acho uma excelente pedida. Mas é bom sempre lembrar que eu sou uma turista assumida e farofeira, que curte cada cafonice.
6. Se encantar com a Torre Eiffel.
Ahhh… sempre voltamos lá. Chegue pela estação de Trocadéro, dica fundamental de um amigo querido. Se impressione com sua presença. É um símbolo mundial, nove entre dez terráqueos reconhecem esse símbolo. No final da tarde você pode se sentar com seu vinho ou cervejinha, no gramado do Champ de Mars (oposto a entrada do Trocadéro). Hoje em dia tem até ambulante vendendo garrafas de vinho no local. Ali, espere para ver as luzes da torre se acenderem piscando, comemorando a noite que cai sobre a cidade. É um lindo pôr do sol parisiense (avisei que sou turista assumida e cafona).






7. Passear em Marrais em um domingo.
Explore cada cantinho e lojinha fofa. Pode aproveitar também a feira de rua que acontece nas manhãs de domingos, no final do bairro.
Visite o museu de Picasso e não deixe de olhar as pequenas galerias de arte contemporânea no entorno da Place des Vosges. Sente-se também no gramado dessa praça para descansar da “andação”. É um dos endereços mais caros da cidade e você vai poder estar no quintal deles.
Vai passar por várias confeitarias fantásticas e alguns endereços tradicionais como o L’As du Falafel na Rue des Rosiers, sempre com filas gigantes.
Falando em doces, para quem é fanático por macarons, os melhores são os Ladurée e Pierre Hermé. Tem embalagens bonitas e são bons presentes. Vai dar de cara com alguma loja deles em algum trajeto. Não se preocupe em procurar.
8. Visitar o Jardin du Luxembourg e o Pantheon com seu pêndulo de Foucault. Pode combinar esses passeios com os passeios do número 5, pois é possível fazer tudo a pé.
Descanse nos jardins mais bonitos de Paris, que estão sempre muito renovados e floridos. O laguinho do centro é o principal “point da leseira”, com cadeirinhas espalhadas ao seu redor. Crianças colocam barcos para flutuar, locais e turistas tomam sol por ali.


O Pantheon fica ao lado da Souborne e perto da Grande Mesquita de Paris (que acho meio sem gracinha, mas se tiver terminado o dia cedo…dizem que o chá de lá é muito bom).
Ali por perto também tem o crepe de rua mais famoso de Paris, no Au P’tit Grec. Verdadeiro “podrão” francês. Vale uma refeição. Fica na Rue Mouffetard e você não vai se perder, pois a fila é sempre grande (mas anda rápido). É uma birosca de muito sucesso. Nessa mesma rua tem um quadrilátero muito bonitinho e parisiense, destes de filmes, com uma fonte no meio. Vale para comer e/ou tomar alguma coisa, vendo tempo passar nesse cenário. As ruas transversais são fofas também.


9. Separar um dia inteiro para um bate-volta de trem para Giverny (não fica aberto o ano todo, mas penso que, se for possível, deve tentar conciliar as datas para ter Giverny no roteiro)
Adoro jardins e o impressionismo, então sou dramaticamente apaixonada pelo lugar. É ali que quero que minhas cinzas sejam espalhadas, fertilizando o jardim mais lindo do mundo.
Se for possível, depois de saltar na estação do trem, siga de bicicleta. É fácil alugar ao redor. Você pode almoçar em um restaurante por lá ou de novo fazer de novo um piquenique. Na volta, o bar Richard tem um café ou uma cervejinha pra comemorar o dia incrível.








8. Uma manhã para Montmartre
É muito pitoresco. Gostoso de passear. A Basílica de Sacré-Cœur é linda, e tem uma vista da cidade toda. Já subi na sua torre, mas não acho que vale o esforço. Há inúmeros rooftops em Paris para matar seu desejo de visões mais amplas, com menos sacrifício.
Em Montmartre tem o famoso painel do “Eu te Amo” (uma parede de azulejos azuis com essa frase escrita em praticamente todos os idiomas). É bonitinho e fica em uma praça, logo na saída do metrô. Se você colocar no Maps para ir direto para lá, fica muito fácil de achar e no caminho do seu dia no bairro. Dica: não fique tentando chegar perto do painel pela parte central. Vá até o final da praça e entre rapidinho pelo lateral. É improvável conseguir tirar fotos bacanas ali sozinho, mas consegue uma self engraçadinha com seu amor.
Tem uma grande praça, logo após a Basílica (que você pode subir de escadas ou de bondinho), andando para a esquerda, que tem restaurantes e bares e fica lotada de artistas fazendo retratos dos turistas.






9. Encaixar o diferente Musée de L’Orangerie nas suas andanças.
É um museu pequeno, basicamente com enormes telas das ninféias de Monet, mas muito impactante para quem curte o artista. Eu amei.

10. Arco do triunfo e Champs Elysees.
O arco é uma obra magnífica. Precisa chegar perto (passagem por baixo da rua, cuidado com furtos por ali) e ter tempo para observar cada detalhe. Subir lá é cansativo, mas pode valer o esforço para se divertir com a confusão de carros na sua volta, a vista da avenida inteira e algumas explicações de alguns detalhes da obra.
Na Champs Elysees não vale a pena fazer refeições, é tudo mais caro e de variável qualidade, mas no seu entorno tem vitrines lindas e boas lojas de esportes, para quem gosta. Por perto você alcança um hotel lindo, sempre com toldos e gerânios vermelhos nas sacadas (Plaza Athénée).




O Petit e Grand Palais também podem ser alcançados a partir desse passeio, sem muito esforços para quem gosta de caminhar, assim como depois a Ponte Alexandre III, sem dúvida a mais linda de todas.
Outras dicas:
Pesquisar a programação cultural da época que visitará a cidade. Hoje o Atelier de Lumières, uma magnífica experiência imersiva, ficou mais conhecido, pois tem sido multiplicado em muitas cidades do mundo, em diversos ambientes amplos. Mas em Paris você tem um dos originais, o segundo a ser inaugurado. Se ainda não experimentou vale agendar. Vi Gustav Klimt uma vez ali e foi bem legal. Mas a imersão mais emocionante, e que vale a pena mesmo que já tenha ido em outros, fica em Lês Baux de Provence, em uma pedreira desativada, com um gigante pé direito. Considero imperdível, qualquer que seja o artista em exposição. Mais França pra você.






Sobre onde comer. São milhões de opções e a comida francesa surpreende no sabor e no aspecto. Não vou me arriscar a indicar. Difícil você não comer bem. Raramente escolho restaurantes antes de viajar, prefiro olhar e sentar pelo caminho. Em Paris costuma dar bem certo fazer isso. O único restaurante inesquecível que iria mencionar, o Blue Elephant, fechou sua filial de Paris, possivelmente por conta da pandemia. Era um Tailandês muito especial, uma pequena florestinha com comida ótima e você recebia uma orquídea ao final. Na última vez que estivemos lá entreguei a orquídea que recebi na saída, no caminho de volta para o hotel, para uma desconhecida. Escolhi uma francesinha linda e lembro seu espanto e felicidade ao receber a flor
Sobre as comidas. Se você ama pato, como eu, estará no lugar certo. No cardápio mais usual é difícil faltar Pato Confit e Tartare de Boeuf, carne crua com ovo e temperos, bom para comer com fritas. Paris também é onde se encontra o melhor croissant do mundo e onde misto quente se chama Croque Monsier. Os crepes são imperdíveis e os doces maravilhosos. Nunca provei Escargot mas sugiro a aventura.

Espero ter contribuído para sua futura paixão por este país que sempre me faz feliz.