Da coleção de histórias de vida – Finitude e um lugar chamado Rio Bonito de Cima

Nos anos 80 minha mãe e meu padrasto resolveram vender tudo que tinham e se mudar para um pequeno sítio no lugarejo de Rio Bonito de Cima, serra no RJ, distrito de Nova Friburgo. Iam viver da fabricação de húmus de minhoca e de queijo. Distribuíram o filhos. Eu e minha irmã, ainda adolescentes, fomos morar com nosso pai e o filho do meu padrasto ficou morando com a avó.

É claro que não deu certo. Em 4 anos, já falidos, tendo que descer a serra com o carro desligado por falta de grana para sequer comprar gasolina, retornaram para a cidade grande. Mas conseguiram se recolocar profissionalmente, meu padrasto em um emprego formal e minha mãe criando uma confecção de moda feminina. E mantiveram este sítio, durante 27 anos, como casa de veraneio.

Orquídeas do Sítio Arco Íris.

Foi o tempo em que eu e minha irmã ingressamos na faculdade, formamos, casamos, tivemos filhos.

Barquinho de papel no lago do sítio. Memória afetiva.

O sítio Arco Íris foi uma presença importante na minha vida de adolescente e na infância dos meus filhos e das minhas sobrinhas. Ficou sendo a memória afetiva da família. Mas veio o envelhecimento, doenças e a dificuldade de minha mãe se descolocar até o sítio. Venderam a propriedade em 2011 para um casal de estrangeiros que pretendia morar ali.

Dez anos depois alugamos uma casa (Sítio da Luz) no mesmo lugarejo. Mais perto do vilarejo de Rio Bonito de Cima, que, para nossa surpresa ganhou espaços charmosos para beber, comer e dormir. Embora a estrada ainda seja muito ruim (descrevo como o leito seco de um rio pedregoso), o astral é ótimo. Aconselho um fim de semana por lá. Se tiver previsão de chuvas somente tenha o cuidado de usar um carro alto, levar galochas e capa.

Rio Bonito de Cima. Charminho local.
Lindezas da natureza.
Cachoeira dentro do Sítio da Luz.

Já que estaríamos por perto, é claro, queríamos visitar nossas memórias. Especialmente, nossos filhos queriam mostrar para suas namoradas/o onde aconteceram todos aqueles fatos marcantes da infância deles: as guerras de lama, os bolinhos de chuva, os banhos de rio e açudes ao lado dos nossos Goldens, os tombos mirabolantes, as bolas de sabão gigantes com canudos de mamoeiro e a sensação gostosa da lareira quentinha no final do dia.

Na beira do rio de calça de moletom e tudo.
Bolas de sabão com canudo de mamoeiro.
Pepper e Cookie. Cookie passava o dia retirando as gigogas dos açudes.

Lá aconteceram episódios mágicos, como o dia em que cada criança elegeu um pratinho de plástico de vasos, daqueles vagabundinhos, para ser seu barco no rio. Um dos meninos perdeu o dele na correnteza, e chorou “uma vida”. Horas depois, já com as lágrimas secas e na beira de outro trecho do rio, este mesmo menino viu o seu pratinho boiando placidamente em sua direção. Coisas da energia do lugar.

A janela da sala. Sítio Arco Íris. 2007.

E tinha as noites contando piadas na beira da fogueira, os jogos de buraco roubados às gargalhadas, as disputas acirradas pelo filme da noite que seria assistido (VHS, claro!) e a busca aos ovos de Páscoa estrategicamente escondidos (o feriado da Semana Santa no sítio era sagrado). Além do convívio ímpar com bichos: vacas, cavalos, gansos bravos, patos, galinhas, sapos e girinos colecionados em vidrinhos e até uma ovelha chamada Beé. Ou seja, um tempo feliz!

Fogueira no ano-novo de 2010. Friozinho da noite quase sempre permitia.
Busca aos ovos dos coelhinhos!
Rios locais.

Fomos visitar o sítio Arco Íris com dúvida se poderíamos entrar. Na nossa imaginação ainda havia um caseiro que vivia e cuidava do local. Combinamos o que falaríamos para ele. Como o convenceríamos de nos deixar entrar e olhar tudo. E seguimos em comboio, toda turma – eu, minha irmã, maridos, filhos e filhas e respectivos namoradas/o.

A entrada do lugar já demonstrava que provavelmente há anos ninguém passava por ali. Vegetação alta, lama. Só um dos carros conseguiu subir o caminho.

Para nossa surpresa a porteira estava trancada com cadeado. Pulamos. Procuramos a casa do caseiro que ficava logo na entrada. Não existia mais. Seguimos caminhando, todo o grupo olhando em volta, procurando aquelas imagens, aquelas lembranças e o que vimos nos fizeram ficar mudos. A energia era pesada, estava tudo abandonado, tudo escuro. Para piorar chovia fino. Não havia mais lagos, açudes, casas, galinheiro, curral, jardim, nada. Lágrimas nos olhos.

Mas a bicicleta amarela de um dos meus meninos estava no mesmo lugar. Ele se agarrou a ela.

O mato havia tomado conta de tudo. Na casa principal, ainda de pé, através das janelas quebradas, o que vimos foram poças de água. Os ínfimos móveis que sobraram eram os mesmos que minha mãe tinha deixado por ali. Escuridão…escuridão…

Única foto que tive coragem de tirar para minha mãe. Os antúrios que ela plantou, mesmo sem luz e energia, sobreviveram gigantes, dando suas flores lindas, em formato de corações.

Saímos de lá inconsoláveis. Fomos tomar uma cervejinha no boteco local para afogar a tristeza. Depois soubemos que o novo dono do sítio havia abandonado a propriedade por conta de uma tragédia familiar. Contaram que a esposa faleceu em um parto domiciliar, junto com o bebê. Totalmente explicado.

Mas me vieram muita reflexões. Sobre nossas vidas e a vida dos outros. Sobre o fim, ou não. Sobre as tristezas e alegrias. Escuridão e luz.

Penso que devemos viver como os antúrios que encontramos lá. Mesmo sem a presença, sem a convivência, sem o movimento, sem a energia ativa, viveram das energias antigas… das vivências, das lembranças e alegrias guardadas no fundo da alma. Podemos produzir nossas flores em formato de corações, nos baseando sempre em nossas melhores experiências e nossa próprias energias internas mantidas, que só cada um de nós consegue escolher para si.

Reconstruindo. 2020.

3 comentários

  1. Como sempre suas narratibas são cheias de detalhes e nuances que nos remetem à energia do lugar. Mas dessa vez as emoções foram bem marcadas pela decepcao do abandono do lugar com uma terrível explicação pelo fato. Tomara que ouyra familia compre de.volta esse local mágico da vida de vcs. Quam sabe vc e sua irmã pudessem fazer uma sociedade e aduqiri lo de volta para familia? Grande beijo

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  2. Chegamos a cogitar. Mas são velhos tempos e novos tempos. Novas histórias e lugares mágicos para construir com esta nova geração. Aprender a lidar com esta perda (ou não…) é a grande lição.

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