Certo dia, depois de tentar me medicar com meu próprio CRM por duas semanas, me dignei finalmente a procurar um dermatologista para me ajudar com umas manchas que apareceram nas minhas pernas.

A cidade maravilhosa sempre foi muito violenta. Chovia fino, e já perto do consultório, parei em um sinal e comecei a mexer no rádio, distraída. De repente um motoqueiro bateu no meu vidro com força e neste exato momento o sinal se abriu. Assustada, claro, eu arranquei com o carro e nitidamente senti que passei em cima de alguma coisa – troc…troc… Nisso alguém gritou e eu freei. O mesmo motoqueiro bateu de novo no meu vidro e berrou:
– Você atropelou uma pessoa! Tentei te avisar que ela estava na sua frente.
Disse isso e se foi.
Pânico! Como? Não havia ninguém na minha frente! Liguei o pisca alerta e desci do carro pra olhar. Uma moça magrinha, estava deitada na rua. Marcas de rodas nas suas pernas e eu havia literalmente passado em cima delas. As pessoas em volta me contaram que enquanto eu estava distraída parada no sinal, ela se deitou no meio fio, com as pernas no asfalto, na frente do meu carro, exatamente na frente das rodas e abaixo do meu campo de visão.
Um rapaz se aproxima e me entrega um bilhete:
– Este é meu telefone, ele diz. Se você precisar eu posso testemunhar que ela deitou na frente do seu carro, sem que você pudesse ver.
Guardo o bilhete na bolsa automaticamente. Me concentro na moça que gemia e falava coisas desconexas. Não havia feridas, nem fraturas evidentes, nem mesmo nas pernas. Mas a respiração era assustadoramente estranha, os olhos esbugalhados. Examinei o resto do corpo, tudo normal. Pulsos fortes. Confirmei com testemunhas:
– Passei somente (somente?) em cima das pernas?
– Sim, sim. Unanimidade. Somente as pernas foram atingidas.
Do nada alguém se dizendo o marido, apareceu. Um passante tinha reconhecido sua esposa e o chamou. Ele era o garçom da churrascaria da esquina.
– É minha mulher. Exclamou. Não acredito… acabou de ir no restaurante e me pedir dinheiro. Me disse que estava limpa e que queria visitar a irmã em Realengo. E eu dei cinquenta reais. Sou mesmo um idiota. Pelo visto ela comprou droga de novo. Está doidona…ela usa crack moça…coisa pesada…deixa ela aí que o bombeiro vem pegar. Eu não vou ficar aqui. Não tenho mais paciência pra isso.
Daí voltou para o restaurante, sem titubear. Pelo menos me ajudou a entender melhor o torpor e a respiração. Fiquei ali, torcendo para a ambulância chegar logo. Nervosa, tentava usar meu racional – pulso forte e amplo, tudo bem, ela está bem… Na palpação não há sinais de fratura séria, não há feridas abertas, ela está bem…
Mas a “cereja do bolo” foi a chegada de um casal jovem. Se identificam, com orgulho, como estudantes de medicina do último ano. Despachados, examinam a moça de novo. E eu, que continuava atordoada, fico muda observando. Uma metade minha estava ali e a outra ainda não acreditava no que estava acontecendo. Mas ele exclama, heróico:
.- Vou fazer um “boca a boca”. Me ajudem aqui.
Saio do torpor e grito:
– Não! Você não vai fazer nada. Não vai nem mesmo mexer nela. Se você é quase médico, eu sou médica. Me acalmo um pouco e explico: Ela está drogada. É só isso, uma respiração típica dessa situação. Mas ele não entende. Acha que estou debochando
– Não vê? Ela vai morrer, ele insiste.
– Não vai não, pelo menos não agora. É só efeito da droga, veja que ela volta a respirar. É viciada. me acalmo mais e conto sobre o marido. Mas o rapaz insiste, finge que não estou ali, começa a se posicionar. Acabo tendo que proteger a moça com meu corpo, agora gritando feito uma louca.
– Não mexa nela! Estou falando sério. Não sabemos se tem alguma coisa no pescoço, não sei o que de verdade aconteceu. Se quiser ajudar fica esperando a ambulância como eu, tomando conta pra ninguém mexer. Você não sabe o que está fazendo.
Deus! Era só o que me faltava, venho ao médico, odiando perder minhas horas de trabalho, atropelo alguém e, de lambuja, ainda tenho que cuidar de um estudante de medicina, querendo salvar o mundo.
Finalmente a ambulância chega. Colocam o colar cervical, carregam a moça de maca e sequer me perguntam o que aconteceu. O guarda não se dirige a mim, se volta de novo para organizar o trânsito. Os estudantes vão embora, chateados, e sem se despedir. E eu sigo para a dermatologista, tremendo dos pés à cabeça.
Vidas se cruzam em um momento extremo. Talvez nunca mais nos encontraremos.
Mas aquele bilhete ficou “pra sempre” na minha caixa de documentos importantes. Mesmo muitos anos após o acidente, nunca consegui jogar fora. Virou um talismã. Sempre que olho para ele fico feliz. Representa para mim a boa vontade desinteressada, especial e rara.
Ana gostei muito do “conto”.
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